
Neste sentido, entre as preocupações, figuram o crescimento desordenado das áreas urbanas, a falta de planejamento, a poluição e as alterações climáticas cada vez mais recorrentes. Porém, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, há também muitas razões de otimismo diante das lições aprendidas, dos avanços sociais e da evolução das tecnologias.
Marcos Freitas, coordenador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no início do século XXI, fez um prognóstico da crise hídrica pela qual passariam grandes centros urbanos nesta década. Ele, que já foi diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), costuma propor uma reflexão para seus alunos na disciplina de Vulnerabilidade Hidrológica: "A primeira coisa que eu faço com eles é mostrar que a água é um bem finito, embora seja renovável. Mas, a população cresce".
Com base nisso, entende que o cenário do semiárido tende a ser, curiosamente, de menor preocupação no futuro. "Do ponto de vista climático, as mudanças foram muito pequenas nesta região se recordarmos o que era o semiárido na década de 1930. São quatro meses de chuvas para oito meses de seca. Há de se considerar, ainda, o crescimento populacional no semiárido e mais pressão por recursos hídricos", pondera o especialista. No entanto, alguns passos importantes foram dados. "No semiárido, só dois rios são perenes: São Francisco e o Parnaíba. Nesse passado, grande parte desse território não tinha água o suficiente, o que provocou o esforço migratório, que foi a solução da época", lembra.
A situação começou a mudar, de acordo com o especialista, na década de 1960 com investimentos em infraestrutura, e a construção de barragens para guardar água, inclusive para construção de hidrelétricas. "Em 1938, seria muito difícil imaginar um avião levando frutas de altíssima qualidade de Petrolina [PE], em meio ao sertão, por exemplo, para o exterior. Hoje, trata-se de um sucesso consagrado nessa agricultura que aproveitou o clima mediterrâneo, com solos de boa qualidade e restrição hídrica. A tecnologia foi melhorando e o desenvolvimento é bastante interessante. E isso era impossível para Graciliano Ramos prever", complementa o professor da UFRJ.
Marcos Freitas acrescenta que a região conhecida como "Matopiba" (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) já produz mais grãos do que o sudeste. "A minha perspectiva para o nordeste é mais positiva do que no sudeste. O que não está sendo resolvida na velocidade adequada é a poluição das bacias da região", alerta.
(com Agência Brasil)