Vejamos a apresentação da obra: "A partir dessa conhecida expressão da língua portuguesa - "gambiarra" -, a obra coloca sob suspeita a compreensão da gambiarra apenas como uma espécie de tática solar, de um certo jeito e forma de agir criativamente". Assim, prossegue o texto, localiza ambivalências de seu emprego tanto em manifestações globais quanto locais. "Aprofundando-se nas ideias de improviso, de uso artesanal de materiais e resíduos, mas também nas consequências da falta de recursos, na escassez e na fome. Ou seja, ampliando o significado e a importância do termo.
. "No final das contas, eu percebi que estava trabalhando com políticas de sobrevivência", reflete Sabrina, referindo-se à aplicação do conceito de gambiarra para além de soluções improvisadas para solucionar determinadas demandas pontuais. Explica-se, pois, a necessidade de um novo livro. "Foram tantos textos escritos, tantas palestras, tantas aulas (no mestrado e no doutorado), que, mais recentemente, achei oportuno tentar condensar tudo isso em texto", diz, sobre o embrião de "Quem Não Tem Cão Caça com Gato". No entanto, ela pontua: "É importante frisar que esse texto não é uma coletânea, uma reunião de coisas que eu já tinha escrito".
. Reparação
O título “Quem Não Tem Cão Caça com Gato”, ressalta-se, faz referência à arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914 - 1992). É que este foi o nome escolhido pela modernista para a primeira exposição de artesanato no MASP - edifício que, como se sabe, foi projetado por ela. Ocorre que, naquela época, como bem lembra o material de divulgação do novo livro de Sabrina Sedlmayer, o nome teria sido visto como inapropriado. Assim, acabou-se optando por “A Mão do Povo Brasileiro”. “Então, agora, quis fazer meio que uma reparação, afinal, a gambiarra faz parte da nossa identidade", afirma a autora.
. Já o subtítulo, Sabrina revela ter sido tomado do disco "Estudando o Samba" (1976), de Tom Zé. "Ele, que é um músico também popular. Então, acho que, ao fim, é um livro muito, muito brasileiro, que resume a perspectiva do que esses anos todos eu consegui formular e analisar sobre o tema gambiarra no Brasil".
. No campo da estética
No processo do novo livro, o encontro com a arte contemporânea foi, situa Sabrina, uma inflexão importante. Neste sentido, ela mergulhou em pesquisas de trabalhos realizados por nomes como Cao Guimarães, Rivane Neuenschwander, Marepe, Paulo Nazareth e Efrain de Almeida. "Comecei a atentar como, naqueles trabalhos (foco de estudos), aspectos que me fizeram pensar acerca dos modos de sobrevivência no Brasil. Então, essa continuidade (da pesquisa sobre gambiarra) sai do campo de algo absolutamente cotidiano - que a gente pode pensar como 'táticas do dia a dia, medidas improvisadas para solucionar determinados fins' - e vai para o campo de uma estética e da política. Porque, no final das contas, eu estava trabalhando com políticas de sobrevivência".
. Confira, a seguir, outros trechos da entrevista concedida por Sabrina Sedlmayer à Revista Encontro:
Revista Encontro - Por que, na sua opinião, a gambiarra encontrou terreno fértil no Brasil? Do mesmo modo, pelo âmbito da falta de recursos, da escassez e mesmo da fome, entende que em países mais ricos a gambiarra desponte de forma mais tímida (ainda que em todos os países, no mundo atual, existam cada vez mais núcleos de pessoas em situação de pobreza)?
Sabrina Sedlmayer - Veja, inicialmente, preciso dizer que eu sou muito, muito, muito contra essa noção que a gambiarra tem a ver com o chamado "jeitinho brasileiro". Na verdade, eu acho que essa ideia é inclusive algo que deveria ser desconstruído. Eu concordo que a gambiarra é astuta, tem o poder do drible... Sim, ela é resistência. Mas, por outro lado, me incomoda uma atitude que chamo de 'despreocupada', de falar que a gambiarra é alegre, o que vejo como um mito. Me refiro ao pensamento de que para nós, brasileiros, somos a Prova dos Nove, a alegria, o país (só) do Carnaval, do samba.. E que tudo vira meme, que somos 'o país da piada pronta'... Será que a gente tem que de fato acreditar que se deve 'levar vantagem em tudo'? (fazendo alusão a uma frase que se tornou conhecida a partir dos anos 1970, por conta de uma propaganda protagonizada pelo jogador de futebol Gérson).
. Pela sua pergunta, percebo que você entendeu exatamente como eu penso a gambiarra. Porque sim, eu a vejo de uma forma muito ambígua. Por um lado, ela é mesmo uma potência criativa e mostra a capacidade de invenção no cotidiano, bem como nas artes em geral, na cultura brasileira. Mas, por outro, na minha opinião, ela é uma cicatriz. Estampa justamente as feridas, as desigualdades sociais, em um mundo no qual vigora a plutocracia, ou seja, no qual a riqueza está cada vez mais nas mãos de menos pessoas. Um mundo de mais vencidos e dominados. Ainda mais em tempos nos quais os algoritmos nos dominam.
. A gambiarra está no cerne do capitalismo. Tem a ver com essa produção bulímica, louca, tem a ver com a circulação... Tem a ver com o mercado e com a mercadoria. Vamos pegar como exemplo "o gato", no sentido de furto de energia elétrica, que pode ser citado como uma das primeiras manifestações da gambiarra. Mas por que se furtava energia? Porque uma boa parte da população não tinha acesso a ela. Então, eu acho que o meu livro fala muito desses dois lados da questão, e que devem, ambos, ser considerados.
. Você também fala do termo "gambiarra" sob o aspecto de "uma realização criativa estabelecida em razão de um contexto de necessidade". Neste sentido, pode nos contar uma gambiarra criativa com a qual se deparou no curso de suas pesquisas, seja nos livros e documentos que perscrutou ou mesmo materializado diante de seus olhos?
Nossa, é tão difícil responder a essa pergunta! Porque eu tenho arquivos e arquivos, catálogos... Mas vou falar de um sentimento que me invadiu quando, anos atrás, fui a uma exposição no Museu de Arte da Pampulha (MAP, atualmente em processo de revitalização) e me deparei com o trabalho "Chove Chuva", da Rivane Neuenschwander, com baldes dispostos naquele espaço imenso, maravilhoso, como se a recolher a água que pinga de goteiras. Essa obra sempre me marcou, porque, ali, eu vejo a estética, mas também a opção de, por meio da arte, discutir, questionar e pensar a escassez, a precariedade.
. Outro exemplo que também está no livro veio por conta da pandemia da Covid-19. À época, eu estava como professora convidada em Milão. No entanto, as aulas passaram a ser ministradas online. Eu estava sozinha, não conhecia quase ninguém, e comecei a ir nas farmácias atrás de máscara, mas não conseguia. Então, quando eu saía para comprar comida, com muito medo, colocava panos no rosto, na boca. Depois comecei a colecionar fotos de máscaras que via nas ruas, feitas com filtro de café, com absorvente, até mesmo com folha de alface, com páginas de livro. Esse seria um outro exemplo.
. Aliás, eu termino o livro com esse tempo (pandêmico), mostrando que todos nós somos gambiarristas - e a vida também. O Cao Guimarães fala isso de uma forma tão bonita! Ele fala sobre a vida como uma grande gambiarra. Porque a existência vem sem projeto. A gente nasce sem bula, quando a gente chega ao mundo, a gente não sabe como é viver. E a gambiarra também. Ela não tem esse saber técnico, não tem projeto, não tem nada. O Cao fala isso e eu concordo demais com ele.
. Bem, já que falamos do aspecto da necessidade intrínseco ao conceito de gambiarra, gostaria de abordar, agora, o lado da criatividade, aplicada à literatura, por exemplo, já que você estudou nomes como a mineira Carolina Maria de Jesus (a quem dedica um capítulo, na obra) e a carioca Elvira Vigna, e, ainda, às artes, para além do trabalho da Rivane Neuenschwander....
. Sim, no caso da Carolina Maria de Jesus (1914 - 1977), vale lembrar o fato de que, se ela não tinha cadernos, pegava no lixo. Ou seja, uma estratégia que tem muito a ver com gambiarra, que é meio que dar outra vida, uma sobrevida, a um objeto, e que acho maravilhoso. Algo como não acreditar na obsolescência. Do mesmo modo, o que faltava no campo semântico dela em termos de palavras, ela inventava...
. No caso das artes plásticas, veja, eu acho que a arte tem pensamento, criação e reflexão, e não é só no produto, é na forma que esse produto vai ser exibido. Então, a gambiarra é objeto, mas ela é um método também. Então, penso que o (artista mineiro) Paulo Nazareth com as sandálias Havaianas, que são a cara do Brasil, quando ele chega até a Miami, andando, com elas, isso é a cara, cara, cara, cara desse uso criativo e potente. Do mesmo modo, aquela citada exposição da Lina Bo Bardi, lá atrás, inteira. Nela, havia vários exemplos que a arquiteta colocou como artesanato. Na verdade, eu usaria a palavra 'arte popular'. E temos, ainda, a famosa cadeira dela, a Cadeira Beira de Estrada (1967), que eu acho linda.
. NR. A Cadeira Beira de Estrada é um projeto de Lina Bo Bardi, que junta materiais simples e abundantes (madeira e corda) de maneira engenhosa. Lina, esperando o ônibus no sol do nordeste, decidiu juntar os poucos materiais que achou para construir um descanso. O modelo ficou disponível para todos reproduzirem. O conceito da arquitetura e design com fim social é central à produção da arquiteta. (Fonte: Instituto Lina Bo Bardi)
Sobre a autora
Sabrina Sedlmayer é professora titular da Faculdade de Letras da UFMG e pesquisadora do CNPq. As pesquisas dela situam-se no campo da literatura comparada, com ênfase nas literaturas e nas culturas em língua portuguesa. Publicou, entre outros livros, "Ao lado esquerdo do pai" (Editora UFMG), "Lavoura Arcaica, um palimpsesto" (Editora do Memorial da América Latina), "Pessoa e Borges: quanto a mim, eu" (Editora Vendaval); "Jacuba é gambiarra" (Autêntica Editora).
. Também responde como organizadora das seguintes edições: "Walter Benjamin: rastro, aura e história" (Editora UFMG), "Limiares e Passagens em Walter Benjamin" (Editora UFMG), "O comum e a experiência da linguagem" (Editora UFMG) e "Comer com os olhos: cultura, cinema" (Autêntica Editora).
. Sabrina é também a segunda brasileira a tomar posse na presidência da Associação Internacional de Lusitanistas, fundada há 40 anos, em Poitiers, na França. A entidade reúne pesquisadores de mais de 30 países para fomentar estudos sobre a língua, literaturas e cultura da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste).
Livro "Quem Não Tem Cão Caça com Gato - Estudando a Gambiarra" (Editora UFRJ, R$ 40)
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