
Muitas das chácaras chegavam a ficar quase encobertas pela mata nativa, formada por mangueiras e bambuzais. É o que conta Nereide Beirão na obra Serra, da série BH a Cidade de Cada um. "Os primeiros lotes foram vendidos em leilão em 1896, 15 meses antes da inauguração da cidade, dia 12 de dezembro de 1897", escreve. Ainda de acordo com o livro, algumas figuras públicas importantes da época e que participaram da construção de BH decidiram viver ali, como o engenheiro Bernardo Joaquim de Figueiredo, responsável pelo projeto de arborização da cidade, e o primeiro prefeito da capital mineira, Adalberto Ferraz.

Hoje, não existem mais chácaras, córregos a céu aberto ou bondes no bairro. Uma característica, contudo, se mantém desde os tempos de Aarão Reis: ruas com nomes de metais. Além da mais famosa, a rua do Ouro, há vias nomeadas de Níquel e Alumínio. Com o passar do tempo, outras seriam renomeadas como forma de homenagear moradores tradicionais, a exemplo de Bernardo de Figueiredo, Dona Marianinha, Dona Salvadora, Dona Cecília e Manoel Gomes Pereira. A rua do Chumbo virou "Estevão Pinto" em 1946, nome do ex-secretário de interior e educação do estado e professor da Faculdade de Direito, morto naquele ano. Mais tarde, outra rua voltaria a ser batizada de "Chumbo", desta vez, bem mais curta e de apenas um quarteirão. As vias Estevão Pinto e Ouro tornaram-se as principais do bairro. Na rua do Ouro, você sobe, sentido bairro, na Estevão, você desce, sentido centro. O Colégio Sagrado Coração de Maria foi inaugurado em 1930. Na época, a instituição era chamada de Colégio Sacré Couer de Marie, devido às suas raízes francesas. "Nosso colégio já faz parte da vida e da história deste bairro", diz Adriana Fátima Pereira, de 49 anos, uma das funcionárias mais antigas da instituição que até os anos 1970 recebia apenas meninas.

Mas, para muitos, o bairro também representava diversão. E bota diversão nisso. Além dos clubes Olympico (1940) e Minas II (1980), que atraíam tradicionais famílias, outra opção fazia a alegria de muita gente. Eram as Olimpíadas da Rua Amapá, disputadas todos os anos em agosto. O engenheiro Júlio Grilo, de 65 anos, foi um dos coordenadores do evento. De acordo com ele, a brincadeira atraía pessoas de vários bairros. Entre as modalidades tinha corrida, salto e até arremesso de ovo. "Não tinha premiação. Era pura farra", lembra Júlio. As gincanas começaram em 1970, com cerca de 200 participantes. No ano seguinte, já eram mais de mil, segundo Grilo. "Já fechamos a avenida Afonso Pena para os jogos. Tínhamos apoio da prefeitura e tudo mais", afirma o engenheiro, que na época morava na rua Herval. Além das gincanas, as festas agitavam a juventude da época. Eram as famosas "Horas Dançantes" nos fins de semana.

Esse clima de outrora está sintetizado na música Rua Ramalhete (também uma das vias do bairro), do compositor Tavito: "De uma rua e seus ramalhetes/do amor anotado em bilhetes/daquelas tardes". Na mesma canção, a lembrança do Colégio Sagrado Coração de Maria, na rua Estevão Pinto. "No muro do Sacré-Coeur/ de uniforme e olhar de rapina/ Nossos bailes no clube da esquina/ Quanta Saudade!" É, muita saudade!