
Se fosse um filme, a vitória de Romeu Zema teria um roteiro considerado, no mínimo, ousado. Um empresário que nunca havia participado de nenhuma campanha apresenta um desempenho medíocre nas pesquisas até cerca de 10 dias antes do primeiro turno, vai para o segundo turno como favorito e é eleito com mais de 70% dos votos válidos - a maior votação proporcional do Brasil. Não bastasse, ele derrotou dois governadores: o atual, Fernando Pimentel, e um ex, o senador Antonio Anastasia. Mas, para quem acha que o roteiro já deu reviravoltas demais, um aviso: o filme acabou de começar. E as próximas cenas prometem ser ainda mais eletrizantes. O governador eleito tem a missão não apenas de mostrar que os quase 7 milhões de mineiros que depositaram nas urnas a confiança em seu projeto estavam certos, como também que as ideias liberais de seu partido, o Novo, podem ser aplicadas em outros estados e em nível nacional. Não é exagero afirmar que a gestão de Romeu Zema - que ainda nem começou, frize-se - já é uma vitrine. "Nós surpreendemos na eleição e temos de surpreender com um bom governo", diz Zema. "É um peso, claro, mas nada diferente do que enfrentei minha vida toda. Muita gente não acredita, mas tenho dormido muito bem. Deito na cama e durmo, talvez por exaustão", brinca.

Apesar de agora mostrar-se animado com o desafio que está por vir, Zema relutou em aceitar o convite para se candidatar ao governo do estado. Sua primeira resposta foi taxativa: "Não!" Mas a conversa com o presidente do diretório estadual, o empresário do ramo de construção civil Bernardo Santos, o fez começar a pensar se não estava na hora de deixar o conforto de Araxá, no Triângulo Mineiro, para se aventurar na política. Tinha acabado de sair da presidência executiva do grupo Zema, empresa de 95 anos que atua no setor de varejo de eletrodomésticos, com presença em cerca de 460 cidades mineiras, e na distribuição de combustíveis, e que faturou 4,5 bilhões de reais em 2017. Também avaliou que os filhos, já crescidos - Catharina, de 25 anos, é formada em cinema e mora em Londres; e Domenico, de 22, estuda engenharia civil na Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo (USP) -, não exigiam tanto dele. "Com a crise que fez o Brasil regredir 7,5% enquanto o mundo cresceu 4,5%, entre 2015 e 2016, tive de reduzir meu quadro de funcionários em 2 mil colaboradores (de um total de quase 8 mil). Não podia assistir a isso sem tomar nenhuma atitude." Bernardo conta que outros nomes foram cogitados para assumir a vaga, como o fundador da Localiza, Salim Mattar, e o dono da rede de drogarias Araujo, Modesto Araújo Neto, mas nenhum pôde encarar o desafio. Antes de formalizarem o convite a Zema, fizeram uma rápida pesquisa em Araxá. "Vimos o quanto a família é admirada ali", conta Bernardo. A eleição mostrou que a admiração se converteu em votos. Em Araxá é difícil encontrar algum eleitor que não tenha marcado 30 no segundo turno. Romeu Zema teve 95,6% dos votos válidos na cidade. Um apoio quase unânime.

A executiva nacional do Novo está muitíssimo interessada em que a experiência mineira dê certo. Colocou seus quadros à disposição de Zema, inclusive o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, que coordenará as questões econômicas do estado, ainda que sem se envolver diretamente com a Secretaria de Fazenda. Mas ninguém pense que alguma decisão será tomada fora da Cidade Administrativa. "Aqui, quem decide somos eu e o Brant", diz Zema, referindo-se a Paulo Brant, o vice-governador eleito. Ex-diretor do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e secretário de Estado de Cultura no governo Aécio Neves, Brant já havia sido cortejado pelo Novo anteriormente. A ideia do partido era de que ele fosse candidato na eleição para a prefeitura em 2016. Mas a conversa não evoluiu porque ele estava acertado com o então prefeito Marcio Lacerda para sair pelo PSB. "Tinha dado a minha palavra, então nem deixei as negociações avançarem", lembra ele, que se desligou da presidência da empresa produtora de celulose Cenibra para se aventurar na campanha. Pouco antes da oficialização de sua candidatura, no entanto, foi preterido por Lacerda, que apoiou o vice-prefeito, Délio Malheiros. Na época, chegou a se dizer "traído", mas hoje garante que o episódio ficou no passado. "Acho que foi uma atitude incorreta e indevida (de Marcio Lacerda), além de não ter sido leal, mas que já foi superada", diz. "De qualquer maneira, não tenho relação pessoal com Lacerda." Agora, no Novo, está se sentindo em casa. "Costumo dizer que as ideias do partido não são revolucionárias, mas evolucionárias, no sentido de que representam uma evolução do que se vê na política hoje."

Mas o Novo não tem apenas a vitória de Romeu Zema para comemorar. Em sua primeira eleição nacional, o partido já ultrapassou a chamada cláusula de barreira, dispositivo que limita a atuação de legendas que não alcançaram um percentual mínimo de votos em pelo menos nove estados. O Novo elegeu oito deputados federais em cinco estados. Dois deles vieram de Minas, o administrador de empresas Tiago Mitraud e o empresário do ramo de transportes Lucas Gonzales. Tiago, que foi responsável pela criação dos cursos de liderança e carreira da Fundação Educar, ONG de incentivo à educação criada pelo empresário Jorge Paulo Lemann, teve como uma de suas principais bandeiras o investimento na melhoria da educação básica. No Congresso, pretende lutar também por uma reforma tributária que simplifique a legislação atual e por uma reforma política que contenha os privilégios. "O Legislativo brasileiro é um dos mais caros do mundo, e isso não faz sentido quando o país vive um problema social tão grande", diz. "É preciso haver ainda uma revisão do pacto federativo, para que estados e municípios tenham mais recursos para suas responsabilidades." Lucas, formado em direito e com pós-graduação em gestão empresarial na Fundação Getulio Vargas e na Fundação Dom Cabral, diz que se inspirou no exemplo do vereador Mateus Simões, único representante do Novo na Câmara Municipal, que foi seu professor na faculdade. "Sempre me interessei por política e vi no Novo um abrigo seguro." Ele aposta na máxima de que o exemplo pode fazer a diferença na Câmara, apesar de a bancada ainda ser uma das menores da casa. "Em vez dos 25 assessores a que eu tenho direito, contratarei no máximo 12 e não gastarei mais do que 50% da cota parlamentar", afirma.

Os desafios são imensos e muitos deles vão se apresentar somente depois da pose, quando a equipe do novo governador ocupar definitivamente os gabinetes do estado. Assim como aconteceu no heliponto citado no início desta reportagem, Zema sabe que, no governo, não pode errar o passo. Qualquer deslize pode fazer desabar muito mais do que uma tentativa de consertar as finanças do estado. Jogará ladeira abaixo os sonhos e a esperança de milhões de brasileiros que hoje torcem por algo realmente novo, aqui representado numa pessoa até pouco tempo completamente desconhecida. Mas que já caiu nas graças de todas as torcidas. Zema, Zema, Zema, estamos todos no mesmo problema.
*Colaborou Rafael Campos