
Apesar da tarefa nada fácil de tentar salvar vidas, a rotina desses heróis de quatro patas não é nenhum tormento. O tenente Lucas Costa, comandante do pelotão de busca e salvamento com cães, conta que os treinos são realizados de acordo com o perfil de cada animal e sempre com estímulos de reforço positivo. "Eles agem no instinto de caça e recompensa. Então, sempre que encontram o que procuramos, ganham o que gostam". Mordentes e bolinhas são os brinquedos favoritos dos peludos. Antes de irem para campo, os animais são treinados por até dois anos, sendo desafiados a superar obstáculos desde pequenos. Para não estressá-los ou exagerar na dose, os treinos são sempre curtos e realizados algumas vezes ao dia. Assim, o animal tem o tempo necessário para descansar e assimila o treino como um momento de descontração. Nas buscas realizadas na tragédia de Brumadinho, os cães na ativa trabalham cerca de 40 minutos e descansam por uma hora, em dias intercalados, e somente nos locais previamente avaliados pelos bombeiros. "Nas últimas semanas, 80% dos corpos foram localizados pelos cães. Considerando o pequeno efetivo canino, o desempenho deles é muito eficiente", diz o tenente.
Dotados de olfato apurado, os cães conseguem detectar odores inimagináveis para os seres humanos, tornando-se parceiros valiosos na busca de pessoas, substâncias, doenças, explosivos, entre outros. O nariz esponjoso e molhado dos animais é capaz de capturar facilmente os odores que a brisa traz, identificando rapidamente qual a sua origem. Eles têm ainda a incrível habilidade de cheirar separadamente com cada narina. Além de serem bons de fuça, os animais selecionados também têm de ser curiosos e perseverantes. Assim, não fazem corpo mole no serviço e não desistem facilmente da busca.

Experiente no assunto, o sargento Edmar Carvalho se dedica ao treinamento dos cães militares, entre eles o pastor belga Chronos. Com 1 ano de idade, Chronos responde rápido a seus comandos. "Eles adoram ser desafiados e nós os estimulamos, sem incitar sua agressividade e sem deixá-los na defesa se sentindo acuados", afirma. Os treinamentos para localização de cadáveres, por exemplo, são feitos com pequenas amostras inseridas dentro de tubos de PVC furado. Assim, é possível identificar odores, sem ter contato com os corpos. "Os cães nunca se aproximam da vítima. Quando as localizam mantêm-se a uma distância de um metro e avisam seus condutores dando sinais", explica o sargento. Para conduzir um cão de busca e salvamento é preciso estar em sintonia com o animal e saber técnicas de adestramento.
O sargento Leonardo Costa Pereira e o border collie Thor são exemplo de parceria que dá certo. Há cinco anos eles atuam juntos e já salvaram muitas vidas. "Ele já foi para várias missões comigo. Estivemos em Mariana, Herculano, Sardoá, Brumadinho. É um grande herói", diz. Com alimentação de qualidade e os cuidados veterinários necessários, os pets chegam a trabalhar até os 8 anos de idade. Após a aposentadoria, permanecem com seus condutores ou são doados para alguém qualificado a garantir seu conforto e bem-estar. A partir daí, nada de trampo. Só sombra, petiscos e água fresca.