
A escritora mineira Sabrina Abreu, por exemplo, tem feito uma série chamada Notas Isoladas, em que posta uma imagem de um caderno com a contagem dos dias de quarentena e coloca um aforismo, um pensamento, uma frase relacionada com seu dia ou com acontecimentos que tenham marcado o cenário nacional ou mundial. A jornalista, que mantém um diário offline há muitos anos, diz que a experiência do diário visual no Instagram é diferente de tudo o que já fez, desde os escritos "impublicáveis" de seu caderno pessoal até seus cinco livros já lançados. "Estamos vivendo uma época totalmente diferente, e eu nunca tinha tido essa prática na internet, mas pensei que sou uma pessoa que cria e quis experimentar esse suporte", afirma. "E estou muito encantada", completa.

O Notas Isoladas ganhou projeção e virou até tema de uma palestra no Tedx Talks São Paulo, em julho, chamada "Eu escrevo todo dia e quero que você escreva também", em que Sabrina fala sobre sua prática e sobre alguns diários famosos da história, como o da jovem holandesa Anne Frank, publicado por seu pai após sua morte no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, na II Guerra Mundial. Pelas Notas Isoladas, é possível perceber as mudanças de humor, sentimentos e visões da pandemia com os quais muitas pessoas podem se identificar. Primeiro, não achando tão ruim ficar em casa, depois a angústia sentida pelas mortes, pelas pessoas sofrendo, e em seguida colocando na pauta acontecimentos nacionais e internacionais, como o movimento Black Lives Matter (vidas negras importam). "Foi um arco inteiro de narrativa", diz Sabrina. "Alguns posts saem melhores, outros piores, é assim mesmo. Estou achando muito legal e enquanto tiver quarentena, eu quero continuar, porque tem feito sentido para mim", afirma.

Marcela, autora de um livro publicado e um que será lançado este mês (Nem Sinal de Asas, pela editora Patuá), começou a postar textos no Instagram no 66º dia de isolamento social imposto em BH. "Antes disso, minha rede tinha apenas fotos do meu filho, e antes dele, de cachorro", diz. Ela conta que, nessa altura do isolamento, imaginou que a quarentena já teria acabado. "Quando me dei conta, estávamos sem a menor previsão. Eu tinha entregado meu romance, não estava conseguindo produzir ficção e quis encontrar uma forma de não ficar parada", explica. Segundo ela, os textos começaram biográficos mas, com o passar do tempo, foram incorporando experiências que outras pessoas lhe contavam. O tom é de sinceridade, realidade, muitas vezes angústias e frustrações, mas também celebração de pequenas vitórias e momentos felizes, como o dia em que seu filho aprendeu a andar.

Fora de Minas, outro exemplo de escritora que explorou essa prática é a paulista Noemi Jaffe, também crítica literária e professora, cujo diário "instagramístico" da quarenta se encerrou no final de junho. Nele, reflexões, comentários sobre algum acontecimento do dia, análises de livros ou filmes vistos no isolamento, tudo com muita poesia e jogos de palavras que lhe são tão caros. A jornalista e bordadeira catarinense Thayana Pretto criou o projeto #bordarpranãopirar, em que borda frases em bastidores, fotografados e postados no Instagram, como "Lágrimas reais em conversas virtuais" ou "Que saudade de sentir saudade de ficar em casa".


As duas mineiras decidiram ir diminuindo a frequência dos posts após mais de uma centena, cada uma. Contudo, dizem que devem continuar com os projetos, mesmo que não diariamente. E atestam as vantagens de se escrever todo dia. Para quem acha que não tem o talento para publicar, vale tentar ao menos em seu caderno pessoal - além de acompanhar os diários virtuais de quem tem talento de sobra.